20 março 2007

Sombras - Cassavetes (1959)



Nota: 8

No fim dos anos 50, Hollywood já era a capital do cinema. Detinha o monopólio das convenções cinematográficas e de um modo (custoso e, então, deficitário) de produzir filmes. Talvez por ser ator em Hollywood, John Cassavetes compreendeu com precisão esse mundo e o quanto sua qualidade de sistema podia afastar os filmes da verdade.
Professor de atores em Nova York, é lá - e com eles - que inicia uma das mais fascinantes aventuras pessoais da história do cinema. Sim, porque se em Paris a nouvelle vague começava um movimento amplo de renovação, isso se dava após muita reflexão -e em grupo. Nos EUA, Cassavetes avançará praticamente só com este Sombras, seu primeiro filme.

No centro da história, existe uma garota negra (Lelia Goldoni), seu amor por um rapaz branco (Anthony Ray) e suas relações com os irmãos. Não há muito mais história do que isso, na verdade. O filme se organiza a partir de algumas situações de base -como esse amor e as relações interraciais-, mas não evolui de modo tradicional.
Ao contrário, o filme parece vagar pelas ruas, pelos bares, pelos apartamentos de Nova York, muito mais interessado no que cada um desses lugares possa revelar do que em contar uma história.

Da mesma forma, quando se trata dos personagens, é a verdade de cada situação que Cassavetes parece perseguir obstinadamente. O improviso é o que dá o tom ao filme -como aconteceria ao longo da carreira de Cassavetes como diretor -, mas é preciso compreender o improviso, aqui, como uma disciplina desenvolvida pelos atores, por esses atores em quem Cassavetes confiava infinitamente.

Do improviso deriva esse frescor que ainda hoje (melhor dizendo: hoje - reinado da indústria cultural - mais do que nunca) impressiona. Quando Lelia e Tony vão para a cama (primeira relação sexual dela) não parecem dois atores, parecem dois amantes. Os lugares públicos não têm cara de estúdio, são lugares vivos.

Cassavetes começava a criar aqui, neste filme sintético (diferente da maior parte de sua obra, Sombras tem menos de 90 minutos), essa forma de realismo vertiginoso e de certa forma inimitável que caracteriza seus filmes: nada é símbolo, nada remete a outra coisa ou outro lugar, tudo é afirmação de um aqui e agora inescapável.

Um realismo inimitável, mas que acaba marcando o cinema, especialmente o americano. Nem falemos dos cineastas da "geração das escolas" ou dos chatos independentes (que reduziram o improviso realista a uma codificação acadêmica).

Mas em certas cenas onde se manifestam os intelectuais nova-iorquinos, podemos perceber de onde vem o melhor de Woody Allen: não vem de Bergman, nem de Fellini. Vem de Cassavetes. Seria muito bom se, em vez de olharmos esse filme como um monumento, o víssemos como ele é, uma lição de algo que, a cada filme, precisa ser reencontrado: a verdade que está nas aparências.